Identidade e Memória do Povo do Maré est[a entre os projetos contemplados no Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade
Publicada em 19-10-2016

Diálogo entre gerações resgata tradições da cultura nordestina

Este texto tem como fonte e encontra-se disponível no site do IPHAN em http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/3820


                               
 
Era uma vez o Zé de Vale, um rapaz valentão, criminoso, um fora-da-lei, filho de uma senhora de posses, que cometeu vários crimes no sertão e por isso foi preso. Há muitos anos, a história do Zé de Vale vivia somente na memória de senhoras como a Dona Angelina, a Dona Ubaldina (Tia Dina) e a Dona Detinha. Elas, por sua vez, narravam essa e outras lembranças que as acompanharam por toda a vida. Assim, contando aqui e ali suas recordações, essas senhoras e outros idosos foram de extrema importância no processo de retomada do rico arcabouço de manifestações culturais que são símbolo e reflexo da formação dos povos tradicionais do mar e suas territorialidades, tornando-se responsáveis pelo resgate de importantes manifestações culturais da Ilha de Matarandiba, que fica na Baía de Todos os Santos, situada à contra-costa da Ilha de Itaparica, no recôncavo do Estado da Bahia.

 

Essa pequena história é o ponto de partida do projeto que a Associação Sócio Cultural de Matarandiba (Ascomat) desenvolve na Ilha: Identidade e memória do povo do mar. O processo de resgate da memória das tradições locais teve início, efetivamente, em 2008, a partir da organização comunitária que resultou na criação da associação, desencadeando um grande trabalho de valorização e sistematização das tradições na comunidade. A partir de então, diversas manifestações, dentre elas o Zé de Vale, Terno das Flores, e São Gonçalo, foram resgatadas e apoiadas. A ação, que cuidou das manifestações reconhecendo a sua importância enquanto patrimônio do local, trouxe para a comunidade maior fortalecimento da sua memória em um riquíssimo processo de agregação e diálogo de gerações.

Adenildes Leal, uma das fundadoras e atual presidente da Ascomat, explica que era muito comum as pessoas mais idosas da ilha conversarem sobre os costumes antigos, quando narravam importantes aspectos culturais de Matarandiba. Nessas conversas, ficava claro que não se viam mais muitos costumes, hábitos e festejos. Percebendo a grandiosidade e a riqueza dessas histórias, além de incentivar mais conversas, os diálogos passaram a ser gravados e sistematizados. Com a fundação da Ascomat, a partir de um desejo da comunidade em ser representada juridicamente, participar de editais e fortalecer os laços comunitários, foram definidos sete grupos de trabalho – um para cada manifestação cultural – que ficaram responsáveis pela organização, planejamento e realização de apresentações, retomando os antigos costumes.

Foi assim que, depois de um intervalo de 53 anos, o Auto do Zé de Vale voltou, em 2011, a fazer parte do cotidiano da ilha baiana. Seguindo o mesmo processo, foram retomados o Terno das Flores (após 27 anos) e Presente dos pescadores para Yemanjá (após período de realização intermitente). A iniciativa ajudou também as manifestações que continuavam acontecendo, mas que foram melhor organizadas: Boi Janeiro, São Gonçalo, Festa do Santo Amaro, Corrida de Canoas, Aruê, Lavagem do Cruzeiro, como também a fundação do Samba de Roda Voa Voa Maria e do samba mirim Os Filhos de Maria, entre outras. As ações mobilizaram a comunidade, em reuniões, nas atividades de lembrança, ensaios, organização de grupos, nas rifas e bingos para a captação de recursos.

D. Francisca, contando suas histórias

 
Das lembranças dos antigos às conquistas de toda a comunidade
Os resultados do resgate das lembranças do povo do mar não ficaram somente na retomada e melhoria das apresentações. Hoje, a Associação cultural é um dos membros da Rede Local de Economia Solidária e Cultura que existe na comunidade, ação realizada com a parceria da Incubadora de Economia Solidária da Universidade Federal da Bahia (ITES-UFBA) e a Dow Brasil, que, entre outros pontos positivos, permitiu a criação de diversos empreendimentos solidários, como o Banco Comunitário Ilhamar (que criou a moeda local da comunidade de Matarandiba, a Concha C$), a Rádio Comunitária A Voz da Terra, a Padaria Comunitária Sonho Real e o Grupo de Horta Agroecológica.

 

A Associação criou também dois empreendimentos culturais que fazem parte da Rede Local: o Ponto de Leitura Tia Dazinha e o Ponto de Memória Tia Dina, que desenvolve atividades voltadas para o resgate da memória social do patrimônio cultural com um pequeno museu com peças, vestimentas, fotografias, utensílios e objetos antigos doados pelos moradores. Com as Rodas de Lembranças, o Ponto de Memória Tia Dina cuida das lembranças das pessoas, da história do lugar, das cantigas, dos fatos, dos costumes, fortalecendo o diálogo e realimentando a memória da comunidade.

Outra grande conquista foi a formação dos grupos mirins deSamba de Roda, Zé de Vale Mirim, Boi Mirim e Terno Mirim. As crianças de Matarandiba também estão incluídas nessa vivência com a cultura local. Elas não só assistem às apresentações, mas participam de ensaios, ouvem as músicas enquanto brincam na praiaquando as mães mariscam, ou quando os pescadores tocam em dias de folga.

Em resumo, relembrar e resgatar o Auto do Zé de Vale resultou, principalmente, no fortalecimento da identidade do povo de Matarandiba, elevando sua autoestima, valorizando e reconhecendo seus costumes, saberes e fazeres locais, o que levou à apropriação da cultura pelas crianças e jovens da comunidade. Promoveu, também, a criação da Ascomat – contemplada como Ponto de Cultura do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura (MinC); criação do Ponto de Memória de Matarandiba e do Ponto de Leitura de Matarandiba; construção de um calendário anual de apresentação das manifestações; realização do I Encontro de Samba de Roda da Ilha de Itaparica; criação do Programa Hora da Cultura na Rádio Comunitária de Matarandiba. Isso tudo sem falar na participação em eventos e redes estaduais e nacionais de cultura; e nos intercâmbios museais e culturais.

Traduzido em números, são três manifestações resgatadas após décadas sem acontecerem; seis grupos culturais organizados e estruturados; quatro grupos culturais mirins criados e organizados; apoio a realização de quatro festejos tradicionais da comunidade. Esses são os resultados práticos deste rico processo de troca que envolve as diferentes gerações e proporciona um maior empoderamento da comunidade na realização e valorização da sua cultura.


Fonte: http://portal.iphan.gov.br/ noticias/detalhes/3820

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